sexta-feira, 26 de setembro de 2025

FADAS

Fadas há no folclore brasileiro? Fonte primeira de minhas pesquisas o Dicionário do Folclore Brasileiro de Luiz da Câmara Cascudo dá-lhe um registro pequeno, ainda que suficiente - viveriam elas no sul, aparentadas das Mouras Encantadas do folclore português. São, portanto, previsoras do futuro de onde supõe-se vir a fada, do latim fata ou fatum, destino. As Mouras, já por si, compõem toda uma tradição que vem ao Brasil pelos ciganos, de mulheres capazes de vaticinar o destino por quiromancia, cafeomancia ou quaisquer outros meios divinatórios. Na aparência as fadas brasileiras irmanam-se da tradição de Charles Perrault, pequenas mulheres silvícolas, de asas nas costas a flanar pelas matas, dotadas de toda sorte de sortilégios comuns aos seres encantados. Representá-las sem cair na imagética que lhes consagra como tal é praticamente impossível sem torná-las, por um lado, algo monstruosas, guarnecidas em parte dos apêndices nem sempre agradáveis dos insetos e outros seres da floresta; por outro, ordinárias na concepção de mulheres trajadas em batas diáfanas, bailando nos ares com asas de borboleta, algo que, sem o devido zelo, pode tanger o fetiche ora sexual, ora religioso. A ideia não é essa. Imagino ter caído na primeira armadilha em minha tentativa preliminar, como se pode ser abaixo:

Tomada a perspectiva, é ainda uma mulher em todos os sentidos, com as proporções corretas correspondentes a uma fêmea humana plenamente madura - municiada de asas de inseto, e um traje relativamente revelador, mas não distante do que se costuma ver nas representações de outros ilustradores. Não me pareceu o ideal. Parte do que penso ser o encanto desses seres está na corrupção da natureza da realidade física, o que vai além da inserção de caracteres artrópodes a um mamífero. Não poderia, por conseguinte, incorrer na alternativa de infantilizar a figura sob pena de evocar o abjeto da pedofilia e afins. Não! A intenção é corromper parte da anatomia, trazer alguma referência aos artrópodes e que tais, e ainda dar harmonia e beleza a figura. Um corpo feminino, provido de proporções diminutas, penso, deve compor-se do expressivo tão próprio do encantamento gerado por seres tais, por isso uma face marcante, provida de olhos grandes e vivazes - a consequência direta é compor uma figura com uma cabeça grande, e novamente é preciso cuidado para não traçar uma criança. Em minha segunda tentativa, a que considero exitosa, pode-se ver abaixo:
 
O diferencial está na profusão de detalhes inseridos - o cabelo ondulado espraia-se em uma franja na fronte, e se finda numa trança improvisada em seu seguimento final; a face é do inexpressivo enigmático ora atribuído a essas criaturas de encantos. A veste é da matéria prima comum ao bosque, senão o couro tratado de algum pequeno roedor, folhas e pétalas cuidadosamente urdidas para compor um vestido de alça única, amarrado na altura da cintura, e este cinto ornado com pequenas contas e resíduos vegetais colhidos aqui e acolá. Encerrando alguma cultura rudimentar com os metais, as fadas prendaram-se com ornamentos destes - brincos, pulseiras, braceletes, etc. As costas e a pele guardam texturas trazidas dos insetos numa simbiose com a anatomia humana, esta mais evidenciada pelas asas, representadas com maior zelo que na primeira versão. Por fim, seios fartos para acentuar a plenitude da idade. Eis uma versão que me satisfez desta figura nem sempre apontada como das mais representativas do folclore brasileiro.

FADAS

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